Conectar e Potenciar com o talento jovem
Iniciarmos o nosso percurso profissional numa nova função ou pela primeira vez no mundo do trabalho, é tremendo! A noite anterior foi de certeza mal dormida por conta do nervosismo, da ansiedade, da expectativa. A roupa, o corte de cabelo, o calçado foi tudo pensado por conta da primeira impressão, que parece que é tudo!
Quando chegamos, de preferência entramos com o pé direito, e…. é só ver e sentir: espaço, cheiro, cor, pessoas, temas, linguagem (tu ou você?), procedimentos, café, almoço, equipas, estruturas. Sorrio, presto muita atenção, demonstro interesse, faço perguntas, agradeço a recepção…
Mas afinal, o que é que os jovens querem?
Acima de tudo, a vontade de quem chega pela primeira vez é pertencer ao grupo, sentir-se parte integrante, identificar-se e encontrar o seu lugar no coletivo que já existe, e com quem quer fazer caminho (e o mais engraçado do ser humano é que esta vontade acompanha-nos desde que chegamos ao mundo e não apenas à empresa!). Esta imensa vontade de aprender significa que estes jovens talentos estão disponíveis para acolher a cultura da equipa, estão ávidos de conhecer essa equipa e de serem vistos como “um dos nossos”.E por isso, esta fase do onboarding é uma oportunidade fantástica para as empresas e líderes de negócio manterem as suas pessoas a longo prazo.
Habitualmente, o onboarding vai desde aprender sobre as práticas e procedimentos mais comuns (marcar e aprovar férias, conhecer o organograma, ser incluído nas reuniões regulares, etc.) até ouvir as boas-vindas por parte do CEO que, aproveita também para falar sobre a visão e missão da empresa, nem que seja através de um vídeo gravado. Mas a verdadeira integração e vinculação afectiva à marca e propósito do negócio, acontece quando damos atenção a um ingrediente muito especial: Valores!
O que são valores? São “atitudes fundamentais que guiam o nosso comportamento e os nossos processos mentais, relacionam-se a estados finais desejados e explicam as nossas escolhas de ação, de pessoas e de situações" (Schwartz, 1994).
O que é que realmente importa para ti? Porquê? No que é que tu acreditas? O que te move? O que tens de único?
Quando pedi a uma das minhas mentees, logo numa das primeiras sessões, para que elencasse os seus três valores mais importantes na vida, a reflexão permitiu um registo de conversa mais profundo. Notei uma grande abertura para partilhar, e até me deu a conhecer o seu vision board e, como este refletia os valores que tinha escolhido. Tem sido muito interessante perceber, que as suas escolhas de hoje, profissionais e pessoais e, os seus interesses no mundo estão muito ligados ao que já colocava nesse vision board.É a reflexão sobre estas perguntas e a procura das suas respostas, que nos permite adoptar as atitudes, comportamentos e pensamentos característicos do profissional, e acima de tudo, da pessoa em que nos tornamos.
É certo que muitos destes jovens talentos, que chegam ao mercado de trabalho pela primeira vez, têm um caminho a fazer no desenvolvimento das tão necessárias Power Skills, que permitem transformar uma simples experiência de trabalho, numa carreira de longo curso.
Apesar de, e felizmente, o desenvolvimento das Power Skills desde o início da formação académica ter vindo a ganhar terreno nas escolas e, constituir uma crescente preocupação junto das famílias, já sabemos que para educar uma criança “it takes a village”. E desta village também fazem parte as empresas e líderes de negócio, precisamente no momento em que os jovens chegam às empresas. Eu diria que esta é uma fase crítica do seu desenvolvimento enquanto pessoas que estão ainda a formar o seu caráter.
A questão é como trabalhar estas Power Skills e ajudar estes talentos a viver o seu potencial?
Demonstrar um genuíno interesse pelos jovens talentos, usar da curiosidade para compreender o que eles e elas têm de melhor, e empatizar com as suas ambições e objectivos implica estabelecer uma relação significante, próxima e promotora do seu desenvolvimento. Muitas empresas fazem-no através de programas de coaching ou mentoring. Ambas são formas de conexão e interdependência entre indivíduos com vista ao autoconhecimento. O coaching por ser uma relação provocatória da reflexão e, um acompanhamento sem julgamento; e o mentoring por ser uma relação promotora do outro, que mostra perspetivas e apresenta caminhos.É numa relação de coaching e/ou mentoring que compreendo o outro, o que ele valoriza e o que lhe faz sentido. Se para mim é importante atingir objetivos coletivos então, estarei no meu melhor se integrado num projecto de equipa, com papéis claros e contributos complementares. Neste contexto, vou poder usar as minhas skills de comunicação, colaboração e empatia. Mas, se eu acredito que a melhor forma de apresentar resultados, é pensar em soluções inovadoras e ter espaço para experimentá-las então estarei no meu melhor a trabalhar num laboratório de inovação, onde possa fazer uso de outras Power Skills como a criatividade, a minha capacidade de resolução de problemas e a auto-eficácia.
Fazer do coaching e do mentoring o centro de um processo de "onboarding" de talentos que chegam pela primeira vez ao mercado de trabalho é moldar caráter e fazê-lo sustentado em valores. As relações próximas que se desenvolvem implicam a utilização das forças de cada um: a curiosidade, a empatia, a perspectiva, a bondade, o amor à aprendizagem, a humildade, a coragem para referir algumas.
São as relações desafiantes, que colocam à prova ambas as partes. Permitem mostrar a humanidade que tenho em mim para alcançar a humanidade que existe no outro! Aceitar o erro para promover a experimentação!
Demonstrar a minha curiosidade para dar espaço para que o outro expresse a sua criatividade, o seu pensamento crítico, a sua capacidade de trabalhar em equipa. Pedir ajuda para alcançar resultados, debater estratégias de actuação para progredir.
E tudo isto não se faz no vácuo social ou no isolamento do gabinete. É preciso conectar e chegar verdadeiramente ao outro. É preciso que o outro se vulnerabilize num espaço de respeito e segurança.
Uma relação de coaching ou mentoring que siga princípios éticos firmes pode dar lugar a esta conexão.
É importante e crítico não esquecer de incluir os jovens talentos, logo no momento do onboarding, no seu programa corporativo de ativação e desenvolvimento de Power Skills.
A probabilidade de criar uma vinculação afetiva à marca, reter esse jovem no futuro e ajudar à formação do seu bom caráter será maior (Dawley et. al, 2010), e com isso o futuro e a sustentabilidade da empresa.
Este artigo foi escrito por Kalpna Kirtikumar - Consultoria Estratégica de Recursos Humanos, Coach executiva, Consultoria Independente de Carreira, Co-fundadora da Semear Valores e Escritora Convidada do PowerUP

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